© 2017  Luciano Bernadino Costa. Por Igor Gimenes

GUARDIÕES E SUBMARINOS

 Há certos guardiões que se postam esquecidos. Ficam lá, tempos e tempos, como um monumento de praça, daquelas cidadezinhas, ainda amistosas, que só nos lembramos como um lugar nostálgico e distante. No entanto, com seus ouvidos atentos esses guardas funcionam à baixa freqüência, ouvem apenas o ruído mínimo, rasteiro, decorando o silêncio com o burilar da água que nos faz dormir nos dias tediosos das férias.

Sobre esse burilar o tempo passa, a vida corre, as necessidades aumentam e, ironicamente,  pequenas cachoeiras domésticas são inventadas para que  venham nos apaziguar. Lá fora o guardião, está desgastado pelas águas do tempo, pelo fluxo dos desejos, pelo apressado das horas, mas, às vezes, é singelamente acariciado pelo prazer daqueles que matam nele sua sede.

De dentro de sua boca a água jorra oscilante, em soluços pulsando resignada a sua matéria delicadamente generosa. Porém, esquecida  como dádiva, como sede, como cura, hoje, tão modernamente, satisfaz as nossas necessidades na temperatura certa.

 

Mas essa água, emoldurada pelo guardião em seu silêncio, ainda mantém seu fluxo e sua particularidade: sendo ela um ponto, uma mina, uma nascente  desdobrou-se e foi capaz de criar uma cidade, dela irradiando ruas, praças, lugares de riqueza e de morada.

 

E, queira ou não,  com ela foi necessário desenhar, desviar seu curso, captar sua medicina, desenovelar  seus traçados imperfeitos para compor  um espaço urbano em que, também, sua bonança fosse participante.

De forma que tornou-se pólo atrativo de  percursos humanos, para onde  inúmeros “construtores”  se dirigiam buscando nela seu descanso e a nobre arte da cura. (Mas também, pretexto para o entretenimento, jogo, glamour etc).

Não muito longe desse ponto, mas já passada algumas décadas, um submarino mergulha sob a terra como em um túmulo que sepulta a si mesmo.

Sua forma densa e pesada  afunda na matéria  lamacenta para realizar uma função desconhecida.

Como quem olha por um periscópio, de quando em quando ele parece emergir, permitindo respirar  o vazio líquido em que se banha. De modo que por sua precária tubulação,  traz o frescor de uma paisagem ancestral hoje submersa aos pés dos homens.

Assim, os lençóis líquidos, muito abaixo da superfície, criam uma outra cidade toda ela formatada, civilizada, disciplinada em sua plasticidade entubada.

 

Nos percursos longilíneos em que ainda afloram, eventualmente, é possível vislumbrar frações dessas  paisagens esquecidas, memórias de uma cumplicidade perdida entre os construtores  de cidades e os fluxos de que estes se alimentam.

 

Estes percursos fluentes, antes abertos ao espaço e domesticado pelo desejo de uma cidade, não tem hoje o privilégio de outrora. De elemento ordenador do mundo construído,  vem se tornando suporte  para um espaço concentrado. A referência a qual lhe foi permitido um dia partilhar sua generosidade, sua riqueza, seu acalento, ainda sustenta boa parte de sua cidade, porém subordinou-se a função, ao caótico do uso, a matéria plana do imediato.

 

Mas, esse líquido translúcido em suas rápidas visitas a superfície, vem ver o céu, através dos submarinos que lhe foram impostos. O guardião que antes era uma celebração de sua fartura hoje tornou-se mais um periscópio de respiro.  A nossa mestra caixa d’água.

Submarino II